Santa Casa de Araçatuba recebe certificação estadual por excelência em captação de órgãos
Reconhecimento da Central Estadual de Transplantes coroa 11 anos de atuação da equipe e-DOT, que já beneficiou mais de 600 pacientes na região.
Foto divulgação
Da redação Diego Alves
A Santa Casa de Araçatuba recebeu, nesta terça-feira (15), uma certificação especial da Central Estadual de Transplantes de São Paulo , órgão da Secretaria de Estado da Saúde. O selo reconhece o bom desempenho da Equipe Hospitalar de Doação para Transplantes (e-DOT) em todas as etapas do processo: busca ativa, notificações e captação de órgãos e tecidos.

A nova classificação do hospital reflete seu perfil assistencial e a sua alta média anual de notificações de morte encefálica. Como referência em alta complexidade para 40 cidades da região, a Santa Casa se destaca nas áreas de neurologia clínica e neurocirurgia — especialidades fundamentais para esse diagnóstico. Ao todo, a instituição registra uma média acima de 40 notificações por ano, incluindo mortes encefálicas e óbitos por parada cardiorrespiratória.
O certificado foi entregue pela enfermeira Regiane Sampaio, enfermeira coordenadora da Organização de Procura de Órgãos (OPO) do Hospital de Base de São José do Rio Preto. O prêmio celebra os 11 anos de credenciamento do hospital junto ao Ministério da Saúde como núcleo de referência do SUS para a coleta de órgãos e córneas.
O rigoroso trabalho dos bastidores
A equipe e-DOT atua na busca ativa de potenciais doadores (pacientes em ventilação mecânica e sem resposta neurológica) e apoia o diagnóstico de morte encefálica. Todo o processo segue um protocolo rígido: avaliação por dois médicos diferentes e um exame complementar que comprova a ausência total de atividade cerebral. Na Santa Casa, a e-DOT conta com o suporte de diversos médicos do corpo clínico.
Além do diagnóstico, a equipe realiza o acolhimento e a entrevista com os familiares para esclarecer o quadro do paciente e apresentar a opção da doação. Confirmada a autorização, os profissionais cuidam da manutenção do doador, por meio de aparelhos, até a chegada das equipes cirúrgicas de captação.
Estatísticas e superação de desafios
Em 11 anos de atividade, a equipe realizou 462 protocolos de morte encefálica, que resultaram em 162 captações efetivas.
O médico Rafael Saad, coordenador da e-DOT, explica que nem todo protocolo se transforma em doação: “Existem casos em que o exame complementar aponta um fluxo mínimo de sangue intracraniano, não confirmando a morte encefálica. Também há contraindicações médicas — como parada cardíaca durante o protocolo, doenças oncológicas ou sepse — além da recusa familiar”.
Apesar disso, a Santa Casa de Araçatuba registra um índice de recusa familiar nesses 11 anos de apenas 23%, um número muito positivo se comparado à média nacional de 45%, segundo a Associação Brasileira de Transplante de Órgãos (ABTO).

Mais de 600 vidas transformadas
Criado em 2015 como uma comissão interna, o serviço foi elevado ao status de Equipe Hospitalar (e-DOT) em dezembro de 2025, após uma reestruturação do Ministério da Saúde.
As 162 captações realizadas geraram 358 órgãos transplantados, liderados por:
- Rins: 238
- Fígados: 90
- Corações: 18
- Pulmões: 6
Esse impacto é vital diante do cenário atual: o Brasil tem 38,5 mil pessoas na fila por um rim (19,7 mil apenas no estado de São Paulo), incluindo 272 crianças.
Avanço na doação de tecidos
No mesmo período, as doações de tecidos também alcançaram números expressivos:
- Ossos: 9 doadores beneficiaram dezenas de pessoas em cirurgias ortopédicas complexas e tratamentos de tumores.
- Válvulas cardíacas: 31 doadores ajudaram a corrigir disfunções graves e defeitos congênitos em crianças e adolescentes (cada doação pode beneficiar até 4 pessoas).
- Córneas: 204 doadores.
Entre 2015 e agosto de 2026, a captação de córneas saltou de 9 para 85 doadores anuais. O avanço se deve ao aumento de integrantes da equipe, fator que possibilita busca ativa diária em casos de óbito por parada cardíaca, permitindo a retirada do tecido ocular (enucleação) em até 6 horas após a morte.
Os enfermeiros realizam o procedimento no hospital, após autorização dos familiares. As córneas são transportadas por veículos da Secretaria Municipal de Saúde de Araçatuba, que mantém compromisso com o hospital de oferecer a logística de transporte necessária para que as córneas sejam entregues no Banco de Olhos do Hospital de Base de São José do Rio Preto, dentro do prazo necessário.
Histórias que se cruzam pelo dom da vida
O evento realizado pela Santa Casa de Araçatuba contou com as presenças especiais de Graziele Furquim do Amaral de Farias e Robson Abdias de Macedo. Ambos representam as centenas de pessoas que ganharam a chance de recomeçar graças à doação de órgãos que foram doados em momento de muita dor por familiares de pacientes em morte cerebral.
O recomeço do enfermeiro Robson, de 51 anos, já dura quase três décadas. Em 1997, ele passou por um transplante de córnea no olho esquerdo devido ao ceratocone — uma doença degenerativa que deforma a curvatura da córnea, distorce a luz e causa visão embaçada. Com o avanço da doença, o olho direito também foi comprometido, o que o levou a um novo transplante em 2018. Hoje, integrante da equipe de enfermagem clínica da Santa Casa de Araçatuba, Robson afirma com gratidão que os procedimentos devolveram sua qualidade de vida e o capacitaram para o trabalho e o convívio social.
Para Graziele, o transplante de rim significou a libertação das exaustivas sessões de hemodiálise. No entanto, a forma como o órgão chegou até ela ainda é uma ferida aberta em seu coração.
Em 2018, aos 32 anos, uma crise severa de hipertensão fez com que os rins de Graziele parassem de funcionar. No mesmo ano, o quadro grave também a fez perder a visão. Mãe de Yasmim e Kauan (na época com 4 e 16 anos), ela encontrou no filho mais velho o apoio para enfrentar tantas limitações. Kauan a acompanhava no tratamento e, inconformado com o sofrimento da mãe, queria doar um de seus rins. Como era menor de idade, o jovem prometeu que faria a doação assim que completasse 23 anos, a idade mínima exigida por lei.

Uma tragédia, porém, mudou os planos de Kauan e devastou a família. No primeiro dia de 2023, o rapaz sofreu um acidente de moto. Ele teve traumatismo craniano e a morte encefálica foi confirmada dois dias depois. No momento mais doloroso de sua vida, ao receber a notícia na Santa Casa, Graziele foi informada sobre a possibilidade de doação de órgãos. Mesmo sob o impacto da perda, ela autorizou o procedimento, honrando o desejo do filho e sabendo que salvaria outras vidas.
Pela legislação brasileira, parentes de até quarto grau que aguardam na fila de transplantes têm prioridade para receber órgãos de um familiar doador. Assim, no dia 5 de janeiro de 2023, Graziele recebeu o rim do próprio filho. Ela se recuperou bem, nunca mais precisou de hemodiálise e hoje segue em acompanhamento semestral com a equipe do Hospital do Rim, carregando em si o maior legado de amor de Kauan.












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